quarta-feira, 27 de junho de 2018

CAPITULO Nº 2.270

Estou no trono quando Alice abre a porta: “pai, você está fazendo xixi ou cocô?” Não te interessa, respondi mentalmente, de minha boca saiu frase absolutamente diferente: “Lili, você tem que bater na porta antes de abrir”. Ela não se abala e explica sem perder o fôlego: “É que o telefone tocou e eu atendi e a moça do banco perguntou se podia falar com você e eu falei que meu pai estava no banheiro daí ela perguntou se você ia demorar e eu falei que não sabia, mas que ia perguntar se você estava fazendo xixi ou cocô, porque se fosse xixi você não ia demorar, mas se fosse cocô você sempre demora!”. “Você falou tudo isso para a moça?”. “Falei”. Ante minha pasmada cara de não-sei-a-que-pai-essa-menina-saiu Alice insiste: “E então? Você está fazendo xixi ou cocô?”. “Fala que estou ocupado e não posso atender agora, só isso!” Alice ainda é criança, normalmente não mente. É repreendida quando flagrada enrolando a verdade, dessa vez eu levo uma dura: “Pai! Tem que falar a verdade!”. Encerro minha participação no diálogo fechando a porta na cara dela. Minutos depois saio aborrecido, nem quero saber como ela despachou a moça ao telefone, nem quero saber quem era a moça, explico para Alice que algumas pequenas mentiras não são mentiras, são verdades convenientes. Ela ouve calada, faz cara que entendeu, foge dos questionamentos montando um quebra-cabeça sobre o sofá e fim. Toca o bonde! Lili precisou de alimentação diferenciada, coisas do crescimento e prevenção a anemias, etc então fígado bovino acebolado entrou no cardápio: “Quero ver esse prato limpo em cinco minutos!” em prato limpo todo mundo entende que Lili deve comer tudo. Mentalmente calculo uns vinte minutos a meia hora de refeição. Geralmente Lili enrola, pede mais suco, pergunta se pode comer metade depois, inventa algum assunto ‘interessante’ para distrair os pais, enfim, na hora de comer ‘comida de almoço ou de jantar’ ela estica o tempo. Fico surpreso quando minutos depois o prato de Alice só tem uns farelinhos de arroz, uns grãos de feijão e nenhum pedaço de fígado. No cantinho um montinho de cebolas refogadas. Ao lado da mesa Juju está com cara de cachorrinha feliz, só não abana o rabo, de resto os pelos os beiços e os olhos brilham de satisfação. “Lili, você comeu toda a carne?”. “Você pediu para comer muito rápido” desconversa. “Alice! Você comeu toda a carne ou foi a Juju?”. Alice ainda é criança, normalmente não mente: “Paaiii...! Você falou que queria o prato limpo, estou limpando e essa é a verdade que me convém!”. Fico com aquela cara de não-sei-a-que-pai-essa-menina-saiu. Até hoje nenhuma moça do banco me ligou novamente.

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