Alice mora num país onde sou rei. Num minuto ela está sentada no sofá assistindo tv, no outro se contorce toda até ficar com as costas no assento, a cabeça pendurada para fora do sofá e os pés sobre o encosto. É comum ela querer ver a TV de ”ponta cabeça”. Permito, depois de alguns minutos eu ordeno:
- senta direito ou desligo a TV!
Ela nem tchuns...
- ALICE!!
Aumentei o tom e coloquei autoridade na voz, porém ela continua na mesma posição, olhando o mundo invertido. Quando vou tomar atitude, me surpreende o comentário calmo, quase um pensamento em voz alta:
- estou procurando um motivo para chorar...
- oi?
Levo um susto, fico desarmado, não esperava nada parecido com isso, Alice chorando apaga todo meu mundo interior. Destrói meu reino!
- eu tenho um monte de pensamentos dentro da minha cabeça e estou procurando um de quando chorei, para ver se eu choro outra vez agora.
Lili continua com a cabeça pendurada na borda do sofá, os olhos fechados, os cabelos desgrenhados tocando os chinelos, largados no chão. Eu me aproximo, sem entender bem o que se passa nesta cabecinha. Penso em fazer cócegas no pescoço exposto. Mudo de ideia, não é o momento, o mundo está sombrio. Sento ao lado e pergunto sem nenhuma autoridade na voz:
- por que você quer chorar?
- para ver se minhas lágrimas vão escorrer pra testa.
O mundo volta a ficar colorido. Faço cócegas. Ela parece um gato girando no ar para cair de pé. Ri gostoso.
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