Alice desenha no chão da sala, estou com o notebook no colo, trabalho e vejo televisão, até então um começo de noite sem assuntos de grande importância. A pergunta surge sem aviso: “pai, lembra quando você plantou um espinho?”. Claro que não sei sobre o que ela esta falando, porém quero saber em qual lua ela está... “eu não lembrava. Tem certeza que eu plantei um espinho?”. A resposta é lacônica: “sim”. Não descobri nada, dou corda a ela “então plantei, mas não lembro”. Alice descarrega a lembrança que tem: “você cuidava dele no inverno, no verão, no outono. Ele ficou bonito e era o mais bonito de todas as tuas plantinhas. Um dia ele sumiu e nunca mais apareceu na nossa casa. Eu gostava dele. Mamãe gostava dele. Cacau gostava dele. Toda a família gostava dele”. Cabeça desse pai fica desesperada. Quando Lili diz essas coisas e os neurônios adultos não encontram conexão para sinapses, é como disparar alarme de incêndio em quartel de bombeiros. Ela continua pintando um cenário na revistinha e eu disfarço para bisbilhotar. No canto do desenho um cacto... eu lembro um cacto entre minhas plantas. Não tenho certeza como ele chegou em nossa casa, mas me recordo que transplantei para um vaso maior, Alice tinha menos de quatro anos... Ficou largado uns meses, talvez ano e meio entre as outras plantas que cultivo no terraço. Um dia, com receio que Alice se machucasse nos espinhos doei o cacto, que nunca deu flor nem trabalho. Volto aos meus e-mails, não digo nada sobre o cacto que se foi para não ferir a caçula. Alice ainda não entenderia a ironia.
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