quarta-feira, 27 de junho de 2018
CAPITULO Nº 2.270
Estou no trono quando Alice abre a porta: “pai, você está fazendo xixi ou cocô?” Não te interessa, respondi mentalmente, de minha boca saiu frase absolutamente diferente: “Lili, você tem que bater na porta antes de abrir”. Ela não se abala e explica sem perder o fôlego: “É que o telefone tocou e eu atendi e a moça do banco perguntou se podia falar com você e eu falei que meu pai estava no banheiro daí ela perguntou se você ia demorar e eu falei que não sabia, mas que ia perguntar se você estava fazendo xixi ou cocô, porque se fosse xixi você não ia demorar, mas se fosse cocô você sempre demora!”. “Você falou tudo isso para a moça?”. “Falei”. Ante minha pasmada cara de não-sei-a-que-pai-essa-menina-saiu Alice insiste: “E então? Você está fazendo xixi ou cocô?”. “Fala que estou ocupado e não posso atender agora, só isso!” Alice ainda é criança, normalmente não mente. É repreendida quando flagrada enrolando a verdade, dessa vez eu levo uma dura: “Pai! Tem que falar a verdade!”. Encerro minha participação no diálogo fechando a porta na cara dela. Minutos depois saio aborrecido, nem quero saber como ela despachou a moça ao telefone, nem quero saber quem era a moça, explico para Alice que algumas pequenas mentiras não são mentiras, são verdades convenientes. Ela ouve calada, faz cara que entendeu, foge dos questionamentos montando um quebra-cabeça sobre o sofá e fim. Toca o bonde! Lili precisou de alimentação diferenciada, coisas do crescimento e prevenção a anemias, etc então fígado bovino acebolado entrou no cardápio: “Quero ver esse prato limpo em cinco minutos!” em prato limpo todo mundo entende que Lili deve comer tudo. Mentalmente calculo uns vinte minutos a meia hora de refeição. Geralmente Lili enrola, pede mais suco, pergunta se pode comer metade depois, inventa algum assunto ‘interessante’ para distrair os pais, enfim, na hora de comer ‘comida de almoço ou de jantar’ ela estica o tempo. Fico surpreso quando minutos depois o prato de Alice só tem uns farelinhos de arroz, uns grãos de feijão e nenhum pedaço de fígado. No cantinho um montinho de cebolas refogadas. Ao lado da mesa Juju está com cara de cachorrinha feliz, só não abana o rabo, de resto os pelos os beiços e os olhos brilham de satisfação. “Lili, você comeu toda a carne?”. “Você pediu para comer muito rápido” desconversa. “Alice! Você comeu toda a carne ou foi a Juju?”. Alice ainda é criança, normalmente não mente: “Paaiii...! Você falou que queria o prato limpo, estou limpando e essa é a verdade que me convém!”. Fico com aquela cara de não-sei-a-que-pai-essa-menina-saiu. Até hoje nenhuma moça do banco me ligou novamente.
CAPITULO Nº 2.247
Alice está na cadeirinha, estamos na rodovia que leva para a casa da avó paterna. Claro que Lili precisa de um passatempo! Ela sugere que brinquemos de "o que é o que é" e já ordena que a mãe busque perguntas na internet. Logo vem a primeira pergunta:
- "qual o animal mais difícil de descalçar?".
Confesso que não sei, Cacau também não tem ideia, Lili responde sem hesitar:
- Buldogue!
Até a Juju que estava dormindo levanta a cabeça com jeitão de "hããn?". Eu sou o único que não pode olhar com cara de "hãn" pra cara da Lili, estou dirigindo, então verbalizo:
- Por que o buldogue?
- Porque ele é muito assustador, ninguém tem coragem de tirar os sapatos dele...
Tem lógica, mas todos estão rindo e até esqueço de perguntar a resposta certa. Passamos para outra pergunta. Lili também inventa uma resposta, vamos para a terceira pergunta e novamente ninguém sabe a resposta correta. Lili então desiste de inventar e critica a mãe:
- Hoje você só está fazendo perguntas 'difícils'!
Eu corrijo:
- Difíceis. O plural de difícil é difíceis...
- Tá vendo mãe? Você fez pergunta tão difícil que eu nem sei falar!
Acaba a brincadeira. Todos riem. Menos Lili com cara de azeda olhando a paisagem.
CAPITULO Nº 2.211
Sentada na cadeirinha deveria estar entediada, mas Alice viajando é uma viagem.
- pai, vamos brincar de ver nuvens?
Eu topo na hora:
- vamos! - e aproveito para começar - aquela nuvem ali parece um coelho.
Não me dá bola, afinal Alice não é uma observadora de nuvens comum:
- aquela ali parece um porco fugindo de um dinossauro!
- parece? – não tiro o olho da estrada, apesar da curiosidade me cutucar com um bastão de beisebol.
- sim. E aquela outra nuvem é uma sereia bebê.
Tem um prego na ponta do bastão de beisebol, mas estou a cento quilômetros por hora, não vou olhar, só posso especular:
- por que sereia bebê?
- porque ela não tem cabelos e se não tem cabelos é porque ainda é bebê. Só os bebês e os muito velhinhos não têm cabelos, mas não existe sereia velha, então só pode ser uma sereia bebê!
- é... Tem lógica.
Alice já está em outra dimensão, não dá bola para meu comentário e vai apontando as inúmeras nuvens no céu e dando formas:
- ali uma lagosta voadora! Olha, pai... Ao lado do cachorro com orelhas furadas. E o patinho de bico grande! A onça pintada, olha pai, olha logo, uma onça pintada com medo do elefante sonolento. Acho que ele vai dormir...
Queria muito observar as nuvens e tentar enxergar de onde Lili está tirando tudo isso, mas eu só dirijo! Rodovia dos Bandeirantes, estamos voltando pra casa. O bastão de beisebol comendo solto!
CAPITULO Nº 2.173
Alice mora num país onde sou rei. Num minuto ela está sentada no sofá assistindo tv, no outro se contorce toda até ficar com as costas no assento, a cabeça pendurada para fora do sofá e os pés sobre o encosto. É comum ela querer ver a TV de ”ponta cabeça”. Permito, depois de alguns minutos eu ordeno:
- senta direito ou desligo a TV!
Ela nem tchuns...
- ALICE!!
Aumentei o tom e coloquei autoridade na voz, porém ela continua na mesma posição, olhando o mundo invertido. Quando vou tomar atitude, me surpreende o comentário calmo, quase um pensamento em voz alta:
- estou procurando um motivo para chorar...
- oi?
Levo um susto, fico desarmado, não esperava nada parecido com isso, Alice chorando apaga todo meu mundo interior. Destrói meu reino!
- eu tenho um monte de pensamentos dentro da minha cabeça e estou procurando um de quando chorei, para ver se eu choro outra vez agora.
Lili continua com a cabeça pendurada na borda do sofá, os olhos fechados, os cabelos desgrenhados tocando os chinelos, largados no chão. Eu me aproximo, sem entender bem o que se passa nesta cabecinha. Penso em fazer cócegas no pescoço exposto. Mudo de ideia, não é o momento, o mundo está sombrio. Sento ao lado e pergunto sem nenhuma autoridade na voz:
- por que você quer chorar?
- para ver se minhas lágrimas vão escorrer pra testa.
O mundo volta a ficar colorido. Faço cócegas. Ela parece um gato girando no ar para cair de pé. Ri gostoso.
CAPITULO Nº 2.151
Alice comecou a descer sozinha para o playground, está muito orgulhosa de si mesma com a independência de ir e vir dentro do condomínio. Mal sabe que é vigiada por câmeras e olhos fraternos cem por cento do tempo que fica fora do apartamento. Daí chega do térreo com uma flor, coloca sobre o teclado do meu notebook e antes que eu diga qualquer coisa já explica tudo. Tudo mesmo!
- Pai, eu trouxe uma flor para cada pessoa da família e essa é a tua flor. Vou colocar ela aqui porque não atrapalha nada, nem atrapalha escrever, nem atrapalha você ver o seus trabalhos e você fica sentindo o perfume dela enquanto faz tuas coisas no computador. Não precisa se preocupar porque eu não matei nenhuma dessas flores, elas já estavam todas caídas no chão quando eu cheguei, estavam desfalecidas (eu não lembro a última vez que usei essa palavra e me surpreendo que Lili saiba o significado), e eu peguei para enfeitar o espaço de cada pessoa da família antes de morrerem completamente. Tem até para a enfeitar a cama da Juju, mas a flor da Juju eu vou colocar na cama dela só a noite, senão a Juju vai comer a flor, ela morde tudo, não sabe que flor é só para enfeitar.
Atravessa a sala e vai entregar a flor da irmã, explica tudo novamente e anuncia que vai colocar uma flor no travesseiro da mãe - surpresa para quando ela chegar do trabalho, explica lá da porta do quarto. Eu já parei de trabalhar. Quando Alice volta das incursões no térreo tem muita coisa para contar e é melhor não resistir.
CAPITULO Nº 2.038
Lili come sucrilhos e fala de boca cheia: “queria ser um leopardo”. “não tem como você virar um leopardo... por que você queria ser um animal?”. Ela me olha longamente enquanto soca mais uma colherada na boca já cheia. Penso em repreender e não faço. Sou o tipo pai frouxo para essas coisas pequenas. Ela responde soltando perdigotos lácteos “não é um animal! É um leopardo! Ele é o mais veloz da floresta”. Mastiga parte do que tem na boca, engole, vai levantar a colher eu seguro: “come tudo que está na boca!”. Ela obedece, mas volta a falar de boca cheia: “os caçadores fazem armadilhas para pegar o leopardo e não conseguem de tão rápido que ele passa. Até desarma a armadilha com o vento do leopardo passando veloz, ele é mais rápido que qualquer armadilha. E o leopardo pode comer tudo que existe no mundo, se ele quiser comer nenhuma comida vai conseguir correr mais que o leopardo. Os caçadores não sabem o que um leopardo vai escolher comer e por isso as armadilhas de rede também não funcionam”. Eu interrompo porque não entendi o raciocínio: “não entendi... armadilha de rede?”. Lili esquece os sucrilhos e se empolga para dar aula ao pai: “os caçadores escondem a rede no mato e colocam comida para o leopardo, se o leopardo comer a comida a rede sobe e o leopardo fica preso dentro dela, mas os caçadores não sabem o que o leopardo come todos os dias. Se eles usam um coelho e o leopardo está com vontade de comer outra comida a armadilha não vai funcionar, porque o leopardo pode comer tudo que ele quiser”. Ataca novamente os sucrilhos e eu demonstro atenção: “hummmm, entendi”. Novos perdigotos voam, tento protestar e Alice encerra o assunto leopardo: “mas se eu não posso ser um leopardo eu vou querer ser um astronauta”. “astronauta você pode ser!”. Lili espera eu passar o guardanapo em seus lábios: “eu sei. Eu quero morar no espaço sideral. Ninguém ainda mora no espaço sideral e eu quero ser astronauta para ser a primeira pessoa a morar lá”. Eu brinco “por que você não facilita? De leopardo a astronauta colonizando outros mundos!”. Alice coloca mais uma colher de sucrilhos na boca e fica me olhando, como quem não entende onde está a dificuldade “eu já desisti de ser leopardo!”. Fecha a cara, fim de papo.
CAPITULO Nº 2.004
Alice desenha no chão da sala, estou com o notebook no colo, trabalho e vejo televisão, até então um começo de noite sem assuntos de grande importância. A pergunta surge sem aviso: “pai, lembra quando você plantou um espinho?”. Claro que não sei sobre o que ela esta falando, porém quero saber em qual lua ela está... “eu não lembrava. Tem certeza que eu plantei um espinho?”. A resposta é lacônica: “sim”. Não descobri nada, dou corda a ela “então plantei, mas não lembro”. Alice descarrega a lembrança que tem: “você cuidava dele no inverno, no verão, no outono. Ele ficou bonito e era o mais bonito de todas as tuas plantinhas. Um dia ele sumiu e nunca mais apareceu na nossa casa. Eu gostava dele. Mamãe gostava dele. Cacau gostava dele. Toda a família gostava dele”. Cabeça desse pai fica desesperada. Quando Lili diz essas coisas e os neurônios adultos não encontram conexão para sinapses, é como disparar alarme de incêndio em quartel de bombeiros. Ela continua pintando um cenário na revistinha e eu disfarço para bisbilhotar. No canto do desenho um cacto... eu lembro um cacto entre minhas plantas. Não tenho certeza como ele chegou em nossa casa, mas me recordo que transplantei para um vaso maior, Alice tinha menos de quatro anos... Ficou largado uns meses, talvez ano e meio entre as outras plantas que cultivo no terraço. Um dia, com receio que Alice se machucasse nos espinhos doei o cacto, que nunca deu flor nem trabalho. Volto aos meus e-mails, não digo nada sobre o cacto que se foi para não ferir a caçula. Alice ainda não entenderia a ironia.
CAPITULO Nº 1.989
- pai, quando eu crescer e tiver 16 anos quero trabalhar com Rock'n Roll.
- que tipo de trabalho vc vai fazer no rock?
- todos os trabalhos com guitarra!
- Lili, vai ser muito legal vc trabalhando no rock.
- é... eu sei!
CAPITULO Nº 1.965
Alice ouve a conversa de adultos. Em tempos de febre amarela mãe, pai, avó, tios e tias divagam sobre vacinas e prevenção. Quando parece que o assunto já rendeu e se esgotou Lili se manifesta: “eu também quero tomar vacina” A tia, só para provocar, brinca de terrorista: “mas a vacina é com injeção no bumbum”. Lili desdenha: “não tem problema. Faz muito tempo que eu não tomo injeção”. A tia insiste: “injeção dói”. Alice já ignora completamente a tia terrorista, vai até a mãe, junta as mãos em prece e pede com a carinha imitando o gato de botas: “podemos ir num médico hoje? Estou com uma saudade de tomar injeção!”. Não digo nada, só acho que ela não ligou injeção com agulha.
CAPITULO Nº 1.911
Alice está observando a paisagem que passa a mais de 100km/h através do vidro traseiro do carro. Pastagens, plantações, matas... Quando percebe que tem mata fechada dos dois lados da estrada, comenta:
- em algum lugar nesta mata está a casa da Bruxa. Temos que sair dessa mata antes de anoitecer!
- eita, então vou acelerar e vamos sair já...
- muito bem!
E volta a fixar olhos na paisagem. Surge um lago e ela diz:
- olha ali, um rio.
- Lili, esse é um lago. Não é rio.
Ela não quer saber a diferença entre um e outro, sua curiosidade é veloz e já vai longe:
- neste lago tem jacaré ou crocodilo?
Eu acho engraçado e respondo que não tem nenhum do dois. Pergunto em seguida se ela sabe a diferença entre ambos.
- não sei, mas a professora vai ensinar quando eu for para a escola.
OK. OK. Penso... No rádio começam os primeiros acordes, Milton Nascimento ainda nem colocou a voz e Alice decreta:
- esta é uma música de amor!
A voz entoa: "Por tanto amor, por tanta emoção..."
Ela vibra de felicidade:
- eu não disse? É musica de amor!
A letra continua e rapidamente chega em "... Eu caçador de mim". E Lili com voz decepcionada, já voltando a observar a paisagem diz:
- acho que eu errei... Caçador não tem amor.
Eu dirijo. Alice observa o horizonte e guarda para si os pensamentos. O rádio repete melancolicamente: "Longe se vai, sonhando demais, mas onde se chega assim? vou descobrir, o que me faz sentir, eu, caçador de mim".
CAPITULO Nº 1.867
Alice tem um jeito peculiar de pensar e construir diálogos. E cada conversa tem que ter início, meio e fim. Principalmente fim. Hoje chegou da escola e pegou a meia dúzia de bonecas. Uma a uma colocou todas sentadas no sofá. Pediu um borrifador com água, trouxe pentes, presilhas, chuquinhas, elásticos, etc e começou a pentear os cabelos das bonecas. O tempo passou e ela em silêncio, penteando, molhando, amarrando, cada um dos cabelos. Eu fazendo minhas coisas até esqueci que Lili estava em casa. Finalmente, após incríveis duas horas e meia de 'salão de cabeleireira' ela me chamou para ver o resultado. Olhei para os brinquedos tentando achar um elogio crível - com Alice não dá para enganar, se estiver feio ela vai me corrigir dando bronca. Arrisco um comentário para que ela me dê uma direção:
- São penteados non sense ou vanguarda do apocalipse?
- Pai, eu sei que não sou uma boa 'fazedeira' de cabelos, pode falar.
Não vou dizer a verdade verdadeira, então arrisco levantar a bola dela:
- É, mas a boa notícia é que você pode aprender tudo que ainda não sabe sobre penteados.
- Não. Eu não preciso aprender porque essas bonecas logo vão para doação e as bonecas novas, que você e a mamãe vão comprar, já vem com cabelos lindos e penteados perfeitos!
- Vou comprar? Não sabia.
- Agora eu te falei e você já sabe, né pai?
Não digo nada e isso é um erro, conheço bem Alice, se eu disser que sei vira promessa. Jamais vai esquecer:
- Você já sabe, né pai??
Eu sou obrigado a responder, colocar um fim no diálogo, ou ela não vai parar de perguntar.
- Você já sabe, né pai??
- Preciso pensar Lili.
CAPITULO Nº 1.791
Alice no banho faz muitas perguntas, uma atrás da outra e nem sempre espera respostas. E também conta causos, inventa historinhas com a água, com brinquedos, com a banheira, com a roupa que vai vestir, planeja os sonhos que vai sonhar quando dormir... ela mesma diz "eu falo demais, minha professora até fica com dor de cabeça de tanto que eu falo". Sim, Alice pensa muito, fala muito, mas é no banho, imersa em água quentinha, sabonete, shampoo e tempo de sobra para pensar, livre pensar, que Alice extrapola na verbalização. Hoje, do nada, aguardando o efeito do condicionador nos cabelos, perguntou:
- Quantos dias falta pra você morrer?
- Espero que muitos...
- Eu também espero que falte bastante.
E já foi para outro assunto. Eu fiquei.
CAPITULO Nº 1.772
Alice diz que eu sou marrom... E logo em seguida diz que a mãe dela é cor-de-rosa e por isso ela ficou marrom clarinho, porque pegou um pouquinho da minha cor marrom escuro, um pouquinho do cor-de-rosa da mãe e não ficou nem muito marrom nem cor-de-rosa. Ficou marrom clarinho. Mas, ainda segundo Alice, eu não sou marrom escuro tão escuro quanto o Gui, seu coleguinha de escola. "O Gui é marrom bem escuro e ele é lindo. Eu namoro com ele desde o primeiro dia de aula e..." "OPA! OPA!! OPA!!! - eu interrompo, que conversa é essa de namorar o Guilherme?". Gui estuda na mesma escola, mora no mesmo condomínio e chegam juntos na mesma perua escolar toda tarde. É um menino que me parece tímido, que me olha com cara de quem fez arte... Só agora entendo tudo!
- Paiiiii... eu achei o Guilherme muito bonito, ele também me achou bonita, então nós viramos namorados.
Simples assim... mas eu não vou facilitar.
- E a mãe dele sabe disso? Eu preciso ter uma conversa com a mãe desse menino.
- Quando voltar às aulas você me espera lá no ponto da perua, onde os pais ficam esperando os filhos voltarem da escola. A mãe do Gui também espera por ele e vocês podem conversar enquanto a gente não chega da escola.
Deixa tudo bem explicado e arquitetado, como se fosse a coisa mais normal do mundo ela e o Guilherme, ambos com cinco anos de idade, namorarem desde o primeiro dia de aula. Eu fico matutando, tentando engolir essa historinha, pensando que é fantasia infantil, mas para Alice são favas contadas:
- Pai, quando falar com a mãe do Gui, pode levar um lanche para vocês comerem enquanto conversam. Tem um banco onde os pais podem esperar e tem uma lixeira do lado pra jogarem fora o restinho de lanche e os guardanapos usados.
Eu nem respondo. Ela arremata:
- Leva também um guaraná!
CAPITULO Nº 1.748
Alice me diz que hoje é dia de raloin... Eu concordo:
- Sim, hoje é o dia das bruxas.
- Bruxa não, pai. É dia de raloin!
- E o que você acha que é o Halloween?
- Uma abóbora monstro com uma vela dentro.
Diz isso fazendo caras e bocas que pretendem me assustar. Finjo medo ...
- Nossa, que medo!
- Não precisa ter medo, é tudo de brincadeira.
Horas depois ela está vestida de bruxa, vai pedir doces de porta em porta pelo condomínio. Cacau vai acompanhar. Alice toca a campainha, a vizinha atende e ela pergunta:
- Você pode me dar um doce?
Cacau corrige:
- Lili, você tem que dizer "doces ou travessuras"
- Mas eu não gosto de travessuras, só de doce!
A vizinha ri e entrega um pacote de balas. Alice vai para a porta vizinha, toca a campainha e mantém o estilo bruxinha do bem.
- Você pode me dar um doce?
CAPITULO Nº 1.717
Ontem foi aniversário da Cacau. Parece que faz pouco tempo que ela chegou na minha vida, mas completou 17 anos... é, faz 'muito pouco' tempo. Lili acordou cedo e eu avisei: "hoje é aniversario da Cacau" ela nem tirou os olhos do pedaço de pão para desdenhar: "eu já sabia". Insisti em ser o arauto de boas novas: "vamos na cama da Cacau pular em cima dela e encher ela de beijos?" Lili se animou, largou o pão torrado com requeijão e correu pra chegar primeiro que eu no quarto da irmã. Cacau ganhou beijos, parabéns, carinhos e... de repente Lili parou, me puxou e disse para parar também. Não era para dar parabéns, nem comemorar o aniversário. Ela olhou bem sério pra irmã e falou: "Cacau, é brincadeira. Esquece que é seu aniversário!" A irmã retrucou: "Mas é meu aniversário!" Lili insistiu: "Não Cacau, finge que não é. Esquece tá? É porque eu lembrei que a festa vai ser surpresa!" Rimos. Mas concordamos e passamos o resto do dia sem falar mais em aniversário. Cortar um bolo em família é festa surpresa, para alegria da Alice!
CAPITULO Nº 1.690
Alice come legumes, desde que estejam cozidos no arroz. Tomate nem pensar! Saladas eventualmente. Em dias de semana chego primeiro em casa e fico responsável pelo jantar, sendo assim, eu cozinho arroz com brócolis, ou cenouras, ou couve-flor, com milho, com seleta... Enfim, com tudo que pode ser cozido junto ao arroz. As vezes faço arroz branco e depois de pronto misturo com carne moída feita com seleta de legumes, passa tranquilo no paladar infantil. Feijão aqui em casa só em dias santos. Este a menina come bem! De brincadeira eu coloco no arroz do momento um nome inventado na hora. As vezes pega, as vezes esqueço e dou outro nome. Arroz com espinafre é do Popeye, com brócolis é arroz do Hulk, mas um dia cismei de colocar pedacinhos de bacon e pronto, mudou tudo, inclusive o nome. Assim por diante. A primeira vez que fiz arroz com seleta de legumes, deixei queimar um pouquinho, mas salvou e nomeei de Arroz Emblemático. Como ela não conseguia pronunciar "emblemático" o nome pegou. Só de farra. Hoje fiz com seleta novamente e por incrível que pareça deu uma queimadinha. Mas salvou! Piquei uma calabresa com cebolas e fomos pra mesa. No jantar conversa que vai, conversa que vem, pergunto para a Cacau se ela sabe o significado de emblemático. Enrolou e não disse. Alice quieta, comendo o emblemático. Quando a mãe chegou do trabalho Alice avisou:
- tem comida pra você, o papai fez arroz 'exqwtruátpu'...
Eu salvo:
- ela tentou dizer emblemático.
Lili didática:
- mãe, sabe o que significa arroz 'inxqtrotmlaco'?
- não sei, o que significa?
- é arroz queimadinho.
CAPITULO Nº 1.654
Alice me diz que estou bonito com a camisa pólo vermelha. Quase sempre estou em traje social, coisas de Corretor de Imóveis que segue o código de ética da categoria, mesmo reuniões em família é comum eu tirar somente a gravata e curtir. Mas no feriado eu fui para o aniversário da minha irmã, viagem curta, programada, deu tempo de sair do plantão, passar em casa, ducha, jeans, pólo, tênis.
- pai, eu acho você bonito com essa camisa vermelha e essa calça azul e esse sapato marrom.
- obrigado! Você também está muito linda.
- mas essa meia preta eu não gostei. Eu gosto se você usar sua meia vermelha.
- eu não tenho meias vermelhas, todas minha meias são pretas.
- então você precisa comprar duas meias vermelhas, uma para cada pé!
- acho que não vai ficar legal...
- vai sim. Você está bonito com essa camisa vermelha, mas se usar ela com as meias vermelhas vai ficar lindo!
Disse isso e saiu do quarto dando o assunto por encerrado. Terminei de amarrar o tênis e me olhei no espelho. Me peguei levantando a barra da calça, imaginando meias vermelhas ao invés de pretas. Acho que não fico lindo tão cedo!
CAPITULO Nº 1.647
Alice gripou. Gripe forte, desenvolveu tosse. E nessa rotina de remédios, inalações e evitar friagens leva bronca toda hora porque anda pela casa descalça, abre a janela e fica levando vento, sai do banho e não veste a camiseta... Coisas de gente saudável!
Numa dessas pediu sorvete.
- você não deve tomar sorvete, está com tosse. Quando sarar eu te compro sorvete.
- pai, vai demorar pra sarar.
- nada, em dois ou três dias a sua tosse vai embora.
- acho que não. A minha tosse é tão forte que está quase quebrando meu coração.
- hã?...
- quando eu tusso tenho que colocar a mão assim, no peito, pra segurar meu coração que dói e quase quebra.
- eita! Então vamos voltar no médico pra ver isso.
- não precisa, meu coração não vai quebrar de verdade. É só eu segurar antes de tossir.
(mil pensamentos)
Isso foi anteontem. Hoje a tosse já passou. O coração está a salvo.
CAPITULO Nº 1.598
A coisa toda começa com uma brincadeira porque a irmã adolescente chegou em casa e passou direto pela sala sem parar, se enfurnou no quarto:
- a Cacau é feia, né?
Alice discorda quando ainda estou na vírgula para inserir o "né?"...
- não! A Cacau é bonita. A Cacau é linda. Aqui nesta casa todas as pessoas são lindas.
Eu ainda provoco:
- só a Juju é feia. (Juju é a Lhasa Apso de casa)
- não! A Juju também é bonita. Todos aqui nesta casa e nesta família são bonitos.
- o monstro embaixo da sua cama também é bonito?
- pai, não existe monstro embaixo da cama.
- quando chega a hora de dormir você diz que tem...
- eu sou criança e crianças precisam ter monstros na imaginação, aí os pais e as mães olham embaixo da camas dos filhos e mostram que não é de verdade. Monstros, fada dos dentes, princesas de Frozen, coelhinho da páscoa, papai Noel são todos da imaginação das crianças.
- eita... Eu acredito no Papai Noel.
- mas papai Noel é da imaginação das crianças.
- e gente grande não pode imaginar nada?
- só vampiros. Vampiros são pra imaginação de gente grande.
- nossa! Eu tenho medo de vampiros!!
- não precisa, eles existem só nas imaginações.
CAPITULO Nº 1.571
Todo mundo sabe que Alice é minha caçula, ainda vai chegar a cinco anos de idade, porém sua personalidade é mais antiga. Anteontem estava jantando e, sem interromper o ritmo das garfadas, me disse:
- pai, amanhã quando eu voltar da escola vou chegar com muita fome, você pode fazer espaguete para eu comer? Estou com uma vontade de comer espaguete.
- tá bom! Com molho vermelho ou branco?
- com vermelho... E também com carninha no espaguete.
Estava decidido, com 23 horas de antecedência o jantar do dia seguinte. Ela continuou o ritmo e garfadas e não falamos mais sobre. Ontem, cheguei mais cedo, com fome, olhei o que tinha disponível e lembrei do espaguete. Como tinha tempo fiz o molho à bolonhesa no maior capricho. Busquei Alice na perua escolar e no elevador avisei que, em casa, tinha surpresa pra ela. Entrou procurando presente, quando apresentei a macarronada coberta com molho vermelho ela olhou, fez cara de decepção e soltou:
- isso não é surpresa, é macarrão!
- você está com fome?
- sim.
- então, surpresa! Vai lavar as mãos e vem comer.
Duas garfadas depois, sem interromper o ritmo, me disse:
- pai, amanhã quando eu voltar da escola vou chegar com muita fome, você pode fazer espaguete para eu comer? Estou com uma vontade de comer espaguete.
- ué... Isso que você está comendo é espaguete!
- não. Esse é macarrão.
- macarrão espaguete.
- não é.
Não adiantou chamar testemunhas... Após muitos "é espaguete" e outros tantos "não. é macarrão" Alice foi na cozinha e trouxe o pacotinho de miojo já pra vencer, de tanto tempo que estava esquecido no armário.
- pai, esse é espaguete. Eu tô com muita vontade de comer espaguete, amanhã você faz pra mim?
Bom, todo mundo sabe que Alice é minha caçula, quatro para cinco anos de idade... e sabe também que hoje teremos miojo no jantar!
CAPITULO Nº 1.539
Então eu chego em casa com moedas e dou para Alice. Ela tem um cofre/lata de achocolatado faz alguns meses. Semanalmente tira a tampa, coloca tudo na mesa de jantar, no sofá ou na cama e pede para eu contar o dinheiro, mas não se interessa pelo valor de face e sim pela quantidade de moedas. Então eu chego em casa com moedas e dou para Alice - já falei? É uma alegria, ela se sente rica e sonha comprar uma boneca que come massinhas coloridas e faz cocozinho "que não é fedido"... Ok! Entendido. Ontem fomos jantar no shopping, após o tradicional nhoque recheado com queijo, ela quis andar e se encantar com vitrines - tem só cinco anos de idade mas é cromossomos XX. Cada vez que se interessa por algo pergunta:
- pai, você compra pra mim?
- papai está pobre, deixa pra outro dia.
Ela não insiste. Vamos em frente até se interessar por algo novamente e repetir:
- pai, você compra pra mim?
- papai está pobre, deixa pra outro dia.
Na oitava ou vigésima vez que o diálogo se repete a menina nem tira os olhos do objeto de desejo para me aconselhar:
- pai, você precisa parar de dar suas moedas pra mim. Estou ficando rica e você pobre.
CAPITULO Nº 1.502
Do nada Alice começa um diálogo:
- Pai, a sua mãe que é minha vó de Minas nasceu da barriga de quem?
- Nasceu da barriga da mãe dela, que era minha avó e sua bisavó.
- E a mãe da minha vó nasceu da barriga de quem?
- Da barriga da mãe dela, minha bisavó e sua tataravó.
- E antes de existir as mães as pessoas nasciam de qual barriga?
- ... Oi?
- Antes de existir a primeira mãe, como que a pessoa nasceu?
- Então, a gente precisa falar sobre Darwin e sobre Deus, mas você ainda é tão pequena pra entender... Vamos conversar mais tarde?
- Tá bom. Posso ir no parquinho?
- Deve...! (Ufa!)
CAPÍTULO Nº 1.483
Eu comento que esqueci de comprar água e a Alice se coloca a disposição:
- Pai, quando você esquecer alguma coisa liga aqui em casa que vou te lembrar. Eu sou a maior lembradora do mundo todo!
- Opa, combinado. Assim fica mais fácil!
CAPÍTULO Nº 1.468
Nos primeiros dias na escola a professora quis saber o que cada um queria ser quando crescesse. Os colegas foram respondendo suas fantasias e sonhos, na minha vez respondi: "nada"... Minha professora insistiu. Deu opções, algumas fora da realidade e outras possíveis, mas eu insistia em dizer "nada". Esqueci, cresci, me tornei o que sou e ontem, inadvertidamente, fiz a mesma pergunta para minha filha de quatro anos. Ela nem se abalou respondendo o mesmo que eu. Túnel do tempo! Me vi na sala de aula novamente, sendo encarado por olhos compassivos emoldurados por rugas crispadas de inconformismo. O rosto de Alice estava sereno, o futuro colocado como algo distante a ser encarado num .... distante. Me senti a professora do primário. Só não insisti.
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