quarta-feira, 27 de junho de 2018

CAPITULO Nº 2.038

Lili come sucrilhos e fala de boca cheia: “queria ser um leopardo”. “não tem como você virar um leopardo... por que você queria ser um animal?”. Ela me olha longamente enquanto soca mais uma colherada na boca já cheia. Penso em repreender e não faço. Sou o tipo pai frouxo para essas coisas pequenas. Ela responde soltando perdigotos lácteos “não é um animal! É um leopardo! Ele é o mais veloz da floresta”. Mastiga parte do que tem na boca, engole, vai levantar a colher eu seguro: “come tudo que está na boca!”. Ela obedece, mas volta a falar de boca cheia: “os caçadores fazem armadilhas para pegar o leopardo e não conseguem de tão rápido que ele passa. Até desarma a armadilha com o vento do leopardo passando veloz, ele é mais rápido que qualquer armadilha. E o leopardo pode comer tudo que existe no mundo, se ele quiser comer nenhuma comida vai conseguir correr mais que o leopardo. Os caçadores não sabem o que um leopardo vai escolher comer e por isso as armadilhas de rede também não funcionam”. Eu interrompo porque não entendi o raciocínio: “não entendi... armadilha de rede?”. Lili esquece os sucrilhos e se empolga para dar aula ao pai: “os caçadores escondem a rede no mato e colocam comida para o leopardo, se o leopardo comer a comida a rede sobe e o leopardo fica preso dentro dela, mas os caçadores não sabem o que o leopardo come todos os dias. Se eles usam um coelho e o leopardo está com vontade de comer outra comida a armadilha não vai funcionar, porque o leopardo pode comer tudo que ele quiser”. Ataca novamente os sucrilhos e eu demonstro atenção: “hummmm, entendi”. Novos perdigotos voam, tento protestar e Alice encerra o assunto leopardo: “mas se eu não posso ser um leopardo eu vou querer ser um astronauta”. “astronauta você pode ser!”. Lili espera eu passar o guardanapo em seus lábios: “eu sei. Eu quero morar no espaço sideral. Ninguém ainda mora no espaço sideral e eu quero ser astronauta para ser a primeira pessoa a morar lá”. Eu brinco “por que você não facilita? De leopardo a astronauta colonizando outros mundos!”. Alice coloca mais uma colher de sucrilhos na boca e fica me olhando, como quem não entende onde está a dificuldade “eu já desisti de ser leopardo!”. Fecha a cara, fim de papo.

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