Alice diz que eu sou marrom... E logo em seguida diz que a mãe dela é cor-de-rosa e por isso ela ficou marrom clarinho, porque pegou um pouquinho da minha cor marrom escuro, um pouquinho do cor-de-rosa da mãe e não ficou nem muito marrom nem cor-de-rosa. Ficou marrom clarinho. Mas, ainda segundo Alice, eu não sou marrom escuro tão escuro quanto o Gui, seu coleguinha de escola. "O Gui é marrom bem escuro e ele é lindo. Eu namoro com ele desde o primeiro dia de aula e..." "OPA! OPA!! OPA!!! - eu interrompo, que conversa é essa de namorar o Guilherme?". Gui estuda na mesma escola, mora no mesmo condomínio e chegam juntos na mesma perua escolar toda tarde. É um menino que me parece tímido, que me olha com cara de quem fez arte... Só agora entendo tudo!
- Paiiiii... eu achei o Guilherme muito bonito, ele também me achou bonita, então nós viramos namorados.
Simples assim... mas eu não vou facilitar.
- E a mãe dele sabe disso? Eu preciso ter uma conversa com a mãe desse menino.
- Quando voltar às aulas você me espera lá no ponto da perua, onde os pais ficam esperando os filhos voltarem da escola. A mãe do Gui também espera por ele e vocês podem conversar enquanto a gente não chega da escola.
Deixa tudo bem explicado e arquitetado, como se fosse a coisa mais normal do mundo ela e o Guilherme, ambos com cinco anos de idade, namorarem desde o primeiro dia de aula. Eu fico matutando, tentando engolir essa historinha, pensando que é fantasia infantil, mas para Alice são favas contadas:
- Pai, quando falar com a mãe do Gui, pode levar um lanche para vocês comerem enquanto conversam. Tem um banco onde os pais podem esperar e tem uma lixeira do lado pra jogarem fora o restinho de lanche e os guardanapos usados.
Eu nem respondo. Ela arremata:
- Leva também um guaraná!
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